No Comply: irmãs mineiras criam o primeiro videogame de skate brasileiro

O skate sempre foi mais do que manobra. É rua, é resistência, é identidade. E agora, também é videogame, feito no Brasil, por mulheres, e com os pés fincados na cultura urbana. Criado pelas irmãs Gabriela (22) e Mariana Barbosa (25), de Belo Horizonte (MG), o No Comply marca um momento histórico ao se tornar o primeiro videogame de skate brasileiro, traduzindo o cenário das ruas para um jogo acessível, gratuito e pensado para quem vive o skate no dia a dia.

Em um universo onde tanto o skate quanto os videogames ainda carregam marcas de exclusão e estigmas, o projeto surge como uma resposta criativa e política. O No Comply conecta representatividade, diversidade e vivência real, propondo uma nova forma de olhar para esses espaços historicamente ocupados por homens. Mais do que fugir do segurança dentro do jogo, a experiência convida o jogador a escapar de padrões antigos e abrir espaço para novas narrativas.

Para entender como esse jogo saiu das ruas de Belo Horizonte para ganhar o mundo e por que ele importa para a cena do skate, conversamos com Gabriela e Mariana Barbosa sobre processo criativo, cultura urbana e os próximos passos do No Comply.

ENTREVISTA

O “No Comply” nasce com a proposta de desestigmatizar o skate e valorizar a cultura urbana brasileira. Em que momento vocês perceberam que o jogo precisava ir além do entretenimento e assumir também esse papel cultural e social?

“Aproximamo-nos do universo do skate após produzir um documentário sobre a Cavepool e desde então, trouxemos para a nossa plataforma alguns dos maiores nomes do skate brasileiro. Durante as conversas que tivemos com os skatistas, ouvimos relatos sobre a dificuldade de praticar o esporte no país, especialmente devido ao preconceito que ainda existe com a cultura do skate. Com base nesses relatos e na necessidade de celebrar essa cultura, surgiu a ideia do projeto.”

“No processo de desenvolvimento de um videogame, temos que tomar decisões o tempo inteiro, desde as mecânicas centrais do jogo até a cor da moeda que o jogador vai coletar. Se as cédulas que vemos todos os dias são azuis, violetas e amarelas, por que faríamos o dinheiro no nosso jogo verde? Nesses momentos de decisão, tornar o jogo inclusivo e traduzir a cultura brasileira foi totalmente natural. “

“Mas além disso, desde o início sabíamos que, ao desenvolver um videogame de skate, estávamos trabalhando com uma cultura extremamente rica, diversa e importante para o nosso país, sendo o skate o segundo esporte mais praticado pela população, então sempre tivemos muita responsabilidade em criar um produto que fizesse jus ao que o skate representa para tantas pessoas.”

A escolha por desenvolver um jogo gratuito, para celular e sem anúncios intrusivos foge do padrão do mercado. Como essa decisão dialoga com a realidade dos skatistas e do público brasileiro que vocês querem alcançar?

“No Brasil, consoles e PCs de alta performance ainda são artigos de luxo. Se o nosso propósito com o No Comply é desestigmatizar o skate e celebrar a cultura urbana brasileira, seria incoerente criar um produto que exclui a maior parte dessa mesma população. No Brasil, mais de 80% da população consome jogos digitais e metade dos jogadores preferem os smartphones.”

“Já a escolha de tornar esse jogo gratuito e sem anúncios intrusivos é incomum no mercado de jogos mobile mas, como é o nosso primeiro jogo, remover a barreira de entrada e os atritos da experiência do consumidor era essencial, especialmente sabendo que 40% do público brasileiro consome exclusivamente jogos gratuitos. O skate sempre foi uma cultura de rua, acessível e democrática – fazer um jogo pago ou restrito a plataformas inacessíveis iria na contramão dessa essência.”

O sistema de customização do jogo é extremamente amplo e inclusivo. De que forma essa liberdade de criação reflete a visão de vocês sobre diversidade dentro do skate e dos videogames?

“Acreditamos que a diversidade é um dos pilares mais importantes da nossa cultura, especialmente a do Brasil, mas sabemos que ela ainda falha em ser alcançada em muitos espaços. Tratando-se de skate e videogames, existem estereótipos relacionados aos consumidores e agentes desses universos, especialmente no que diz respeito a gênero, mas, como jovens mulheres, sabemos que eles não condizem com a realidade. No caso dos videogames, as mulheres são a maioria dos jogadores brasileiros.”

“O skate sempre foi um espaço de expressão e identidade, e os videogames também têm se tornado cada vez mais ferramentas de representação e pertencimento. Por isso, criar um sistema de customização inclusivo foi uma das primeiras decisões do projeto.”

A equipe Divas agradece a Gabriela e Mariana Barbosa pela disponibilidade e pela troca ao longo da entrevista. O No Comply segue em desenvolvimento e tem lançamento previsto ao longo de 2026. Já estamos ansiosas para jogar!

TEASER – NO COMPLY

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CRÉDITOS

Texto: Lorena Nunes

Fotos: Slimbi Media