O skate sempre foi múltiplo, diverso em formas, terrenos e possibilidades. Nem todas as modalidades, porém, recebem a mesma visibilidade e o skate de longa distância é uma delas. Essa vertente do skate é focada em percursos extensos, resistência física e constância, onde o desafio não está na manobra, mas na permanência: remar por quilômetros, por horas, mantendo ritmo, técnica e controle do corpo e da mente. Foi justamente nesse território ainda pouco explorado no Brasil que, no final de 2025, uma brasileira escreveu um capítulo histórico.
Aos 37 anos, Paula Conc, conhecida como Paulinha, se tornou a primeira mulher brasileira a completar uma prova oficial de Ultra Skate, permanecendo 6 horas ininterruptas sobre o skate durante a 3ª Maratona & UltraSkate 6 Horas Brasil, realizada em 14 de dezembro de 2025, no Speedland, em São Paulo.

A prova reuniu atletas do skate de longa distância, push race e patins de velocidade. Paulinha foi a única mulher entre quatro competidores e todos concluíram o desafio. Mais do que um resultado esportivo, sua participação simboliza a presença das mulheres brasileiras no Ultra Skate, uma modalidade ainda pouco difundida no país, mas já consolidada internacionalmente em provas de resistência e longa duração.
A seguir, Paulinha compartilha sua trajetória, os desafios físicos e mentais da ultramaratona, o processo de preparação, o significado desse feito para o skate feminino brasileiro e a mensagem que deixa para outras mulheres que desejam explorar o skate para além dos formatos tradicionais:
Qual é a sua relação com o skate de longa distância? Como começou essa conexão e o que te motivou a participar do Ultra Skate, encarando uma maratona de 6 horas ininterruptas sobre o skate?
“A primeira vez que tive contato com essa modalidade foi através de uma corrida de skate de 5km que aconteceu no Aterro do Flamengo aqui no Rio em 2023. Eu vi a chamada pelo instagram e resolvi me desafiar, pois eu não sabia se teria essa capacidade de remar por 5km. Quando eu andava de street em grupo e tínhamos que remar de um pico para o outro, eu geralmente ficava pra trás e tinha muita dificuldade. Rs! Então, foi um desafio pessoal. A minha meta era não cair durante a corrida e tentar finalizar. E quando passei na linha de chegada fiquei muito feliz, me senti realizada. E melhor, eu tinha ganhado! Haha! Na época eu corria, fazia funcional e praticava luta, enquanto também andava de skate freestyle. Acho que tudo isso me ajudou no resultado.”
“No ano seguinte, soube de uma corrida de skate que acontecia em São Paulo, voltada para Skate de Longa Distância. Mais uma vez, resolvi me desafiar. Planejei a viagem, tudo certinho. E me inscrevi na corrida de 10 km. O evento era dentro de um kartódromo, o que tornava, na minha concepção, tudo muito mais mágico e legal. No dia, largamos debaixo de chuva, o que tornou o desafio mais difícil e empolgante! E mais uma vez, consegui finalizar o desafio. E fiquei muito feliz e orgulhosa de mim. Saí de lá pensando que gostaria de correr novamente, e participaria do evento no próximo ano.”
“Em casa, comecei a procurar mais informações sobre a modalidade e descobri que nos outros países o pessoal participava de eventos de 24 horas. E uma mulher, a Lena Maringdal, havia batido o recorde mundial na categoria feminina de LDP num evento de Ultra skate. Achei aquilo simplesmente maravilhoso e muito inspirador. Então, determinei que iria fazer uma distância maior do que eu havia feito antes. E foi então que me dei conta de que aqui no Brasil ainda não tínhamos uma representante oficial de Ultra skate. Achei um absurdo e fiquei revoltada: “Como assim? Logo o Brasil? Isso não pode. Vou lá mudar isso agora!” Hahaha! E comecei a me preparar para o desafio das 6 horas do evento de ultra skate aqui do Brasil.”
Durante as seis horas de prova, qual foi o maior desafio físico e mental que você enfrentou?
“Quando decidi correr a UltraSkate eu compreendia o tamanho do desafio. E tinha plena noção e responsabilidade do que viria pela frente. Mesmo sendo uma pessoa que já tinha alguma afinidade com corridas de resistência e tendo praticado outros esportes que exigiam muito do corpo, eu sabia que precisaria me preparar muito bem, pois a minha saúde estaria em jogo. Não era só um desafio esportivo. O objetivo era finalizar a corrida e bem de saúde.”
“Durante praticamente um ano me dediquei a exercícios aeróbicos e de fortalecimento muscular, além de estudar muito sobre alimentação, reações do corpo humanos a estímulos e ambientes variados, questões de saúde no processo de corrida, entre outras coisas. Como divulgadora científica, busquei em fontes confiáveis a maioria das informações e estudei mesmo, e testava nos treinos. Fui me adaptando da melhor forma e com inteligência, porque às vezes a gente pode até finalizar uma prova, mas a conta chega depois. Não sou desse jeito.”
“Conversei com ultramaratonistas de rua, skatistas (inclusive a Lena) e muitas outras pessoas. Então, foi um processo feito com muito cuidado. Mentalmente eu estava pronta, porque eu sempre gostei de desafios de resistência, e sendo uma pessoa introvertida, passar bastante tempo comigo mesma era tranquilo. Haha! O mais difícil foi controlar a ansiedade mesmo.”
“Durante a prova não senti dor nem cansaço, e tudo ocorreu dentro do que eu havia planejado. Minha maior maior preocupação era conseguir andar com o skate que era emprestado! Isso mesmo! Quando soube onde aconteceria o evento, meu skate não seria bom para curvas pequenas, pois o kartódromo escolhido as curvas eram menores. Então, a galera dos LongClassics aqui do Rio logo arranjaram um pra mim que seria adequado, faltando uma semana para o evento. Mas deu tudo certo! Fui com dois skates montados e preparados para tudo! Haha!”
“Finalizei bem a prova, com tudo certo e saúde impecável! Durante e depois. Nenhum cansaço, nenhuma dor. Só fome mesmo de um bom prato de comida! Hahaha”
“Teve uma coisa engraçada na competição… É que eu estava na fase de comer manga, mas estava difícil achar manga boa pra comer nos hortifrútis. E pra pegar da árvore tinha que ter sorte. Quando cheguei no kartódromo, na parte do fundo da pista tinha uma mangueira. E pasmem, carregada de mangas. Muita manga, muita mesmo. Na árvore, no chão. E eu só vi isso depois que começou a competição. Ou seja, fiquei 6 horas ali passando pela manga, sem poder pegar nenhuma e falando pra mim mesma “quando terminar isso aqui, vou achar uma sacola e catar um monte delas. Vou comer manga até dizer chega!” Hahaha”
“Acabou que terminei a prova, e no alvoroço de tudo, não peguei as mangas. Hahahaha Voltei pro Rio sem manga.”
O que esse feito representa para você, pessoalmente, e para o skate feminino brasileiro?
“Depois do desafio UltraSkate fiquei feliz por ter conseguido colocar nós, mulheres brasileiras, oficialmente no mapa da UltraSkate mundial. É um alívio poder dizer “Opa! Estamos aqui!” É uma grande realização pessoal, e também uma emoção muito grande poder representar a gente nesse espaço. Eu tinha um objetivo, fui lá e fiz. Por mim, por nós! “Como pode um absurdo desses de não termos representantes oficiais na Ultra. Eu hein!” Hahahaha!”
Que mensagem você deixaria para outras mulheres que desejam explorar o skate para além dos formatos mais tradicionais?
“Primeiramente, ande de skate. Experimente os estilos, as modalidades, apenas por diversão. Skate é muito sobre socializar, conhecer culturas, se divertir. Depois disso, você escolhe o que vai fazer. Skate não é apenas ferramenta de competição. O seu coração e o tempo irão definir os caminhos que o skate irão te levar. Então, fique tranquila e aproveite tudo que puder.”
Gostaria de deixar alguns agradecimentos?
“Ao meu marido, que me apoiou em TODOS os momentos. E treinou comigo o longão de 6 horas num calor sobrenatural do Rio, e ainda parava pra comprar água e isotônico pra mim.”
“A minha amigona de infância Janifer, que subia na bicicleta dela e ia me acompanhando enquanto eu treinava.”
“Ao Chico, que me emprestou o skate para competir.”
“Aos instrutores Paula e Carlos da Acquafit, que com boa vontade me ajudaram com treinos musculares específicos pro desafio.”
“E toda galera dos LongClassics do Parque Radical de Deodoro, que sempre torciam, gritavam palavras positivas enquanto eu treinava.”
“Não esquecerei!”



O Divas Skateras agradece à Paulinha por compartilhar sua trajetória, sua dedicação e sua história com tanta generosidade. Registrar esse feito é também fortalecer a memória do skate feminino brasileiro e abrir caminhos para que mais mulheres se reconheçam, se inspirem e ocupem todos os espaços!
CRÉDITOS
TEXTO: LORENA NUNES
FOTOS: Jeferson Gaspar & Arquivo pessoal digital
ENCONTRE SUA SKATISTA: